Mário Soares vai ser o orador principal no lançamento do novo livro de Maria Belo, intitulado Filhos da Mãe, no dia 6 de Fevereiro. Soares, a apenas cinco dias do referendo, irá surgir ao lado daquela que foi a primeira mulher a defender dentro do PS a despenalização da prática do aborto em Portugal e a principal impulsionadora da lei aprovada em 1984.
A psicanalista Maria Belo - que na ocasião lança um livro (a iniciativa será na Fundação Mário Soares) que "é uma interpretação psicanalítica dos portugueses e das suas relações com outros povos" - tem sido uma voz activa na pré-campanha e já participou em acções dos Médicos pela Escolha e dos Jovens pelo Sim.
Ao DN, a ex-deputada e ex-eurodeputada do PS mostra-se descontente com a actual lei, que data de 1984: "Estou descontente com a lei que temos, não funciona." Uma afirmação da própria impulsionadora da lei, que começou por defendê-la dentro do PS, com uma moção sectorial no congresso socialista de 1983 (meses antes do Bloco Central), e que depois conseguiu que colegas seus deputados a apresentassem na Assembleia da República em 1984, tendo sido aprovada com os votos do PS, PCP (que tinha o projecto de Zita Seabra) e de alguns deputados do PSD. "Foi emocionante, a votação durou até de madrugada", acrescenta a actual grã-mestre da Grande Loja Maçónica Feminina.
Dizendo que a lei "é quase plasmada da que existe em Espanha", mas com uma aplicação diferente, Maria Belo sustenta que "alguns médicos deviam ter feito clínicas, outros deviam ter tido mais coragem quando realmente estava em causa a saúde da mãe. Foi todo um trabalho que podia ter sido feito e que ficou por fazer. Não se fez nenhum", aponta.
Muito crítica em relação à situação actual, Maria Belo garante que "a hipocrisia está toda no grande negócio das clínicas clandestinas". E faz revelações: "Sei de clínicas em Lisboa onde se fazem abortos e até se contrataram médicos espanhóis porque alguns portugueses invocaram objecção de consciência." Clínicas essas que "levam o dobro do que se paga em Espanha".
Lembrando que a sua preocupação vem muito de trás, Maria Belo conta ao Diário de Notícias como em 1976 recebeu especialistas franceses que ajudaram a constituir um grupo em Almada que dava consultas de contracepção, mas também fazia abortos.
"Ocupámos uma casa na Cova da Piedade, começámos por dar consultas e apareciam-nos muitas mulheres para fazer abortos", revela. Segundo a ex-deputada socialista, esse grupo de estrangeiros chegou a fazer dois abortos por mês "ao preço de 250 escudos cada um", quantia que servia sobretudo "para as despesas de material".
"Como não podíamos fazer todos os abortos que apareciam, foram-se formando outros grupos", adianta Maria Belo, que garante que a prática funcionou durante cinco anos, até 1981. "Nós fazíamos os abortos por aspiração às mulheres. Eram gratuitos, mas havia esse custo de material de cerca de 250 escudos. Como havia muitos, às tantas ensinámos outras pessoas que construíram os seus grupos", refere a grã-mestre da Grande Loja Maçónica Feminina.
A psicanalista adianta que nunca teve problemas com as autoridades, excepto quando provocou um aborto a uma amiga. "Uma vez fiz a uma amiga minha um aborto em Alfama, com os meios que tinha, só que a situação estava complicada. Por isso provoquei-lhe o aborto e depois deixei-a nas urgências da Maternidade Magalhães Coutinho, que já não existe. Eles lá é que perguntaram quem tinha feito aquilo, ela não disse", conta a ex-deputada.
http://dn.sapo.pt/2007/01/26/naciona...o_dias_re.html