Revista Exame
01.05.2008

O Brasil emerge como uma das maiores potências energéticas do planeta. O que isso -- de fato -- significa

Por Fabiane Stefano, Samantha Lima e Sérgio Teixeira Jr.
EXAME

Elefantes no fundo do mar. Rios de caldo de cana. Eis duas imagens que resumem a condição recém-conquistada pelo Brasil: a de potência energética emergente. As descrições têm um proposital quê de surrealismo. Quem dissesse, seis meses atrás, que a Petrobras encon traria na costa fluminense não uma, mas duas reservas gigantes de petróleo de alta qualidade atrairia olhares enviesados. O mesmo certamente aconteceria com quem se arriscasse a dizer que a britânica BP compraria metade de uma empresa brasileira de etanol para se tornar a primeira gigante petrolífera mundial a entrar de cabeça no mercado nacional de álcool. As apostas na Cosan, maior grupo sucroalcooleiro do país, no leilão de venda da rede de 1 500 postos de combustíveis Esso, um negócio de 1 bilhão de dólares, seriam igualmente recebidas com ceticismo, assim como a sugestão de que as usinas de etanol se transformariam em importantes geradoras de energia elétrica, biodiesel, biogasolina e até mesmo bioplásticos.

Mas tudo o que se descreveu acima aconteceu. Num curtíssimo espaço de tempo, uma sucessão de notícias positivas colocou o Brasil no centro das atenções de uma das questões mais importantes deste início de século: a geração de energia. Os campos Tupi e Pão de Açúcar são dois elefantes, como são chamadas as jazidas que têm mais de 100 milhões de barris de petróleo, e dos grandes. O campo de Tupi, cuja descoberta foi anunciada em outubro, poderia sozinho aumentar em 60% as reservas brasileiras de petróleo, de 12 bilhões para até 20 bilhões de barris. Ainda mais promissor é o campo Pão de Açúcar, cuja divulgação não oficial ainda está cercada de controvérsias. Ele seria o terceiro maior campo já descoberto no mundo e poderia acrescentar outros 33 bilhões de barris ao estoque brasileiro, o que faria do país o sétimo produtor mundial. Se essa montanha de petróleo chegar à superfície, o que ainda vai exigir muito dinheiro, tecnologia e paciência, o planejamento energético do país mudará para sempre. Erguer hidrelétricas na Amazônia pode ser um esforço desnecessário. Por que não construir termelétricas no Sudeste, mais perto do gás natural escondido no fundo do Atlântico e dos consumidores de eletricidade? Do lado do etanol, os avanços que unem biotecnologia com ciência da computação e capital de risco podem levar a produção brasileira a mudar de patamar. Com tecnologia, sol e terras, o Brasil pode garantir sua condição de competidor quase imbatível, uma vez vencidas as barreiras comerciais -- e imaginárias, como no caso do impacto nos preços dos alimentos -- impostas aos biocombustíveis. A transformação que se descortina é profunda e pode abrir um novo capítulo no desenvolvimento do país, impulso que será sentido por gerações futuras. "O Brasil está se tornando uma potência energética graças à combinação única de liderança em biocombustíveis com sua crescente relevância no petróleo", disse a EXAME Daniel Yergin, presidente do instituto de pesquisas Cambridge Energy Research Associates e uma das maiores autoridades do mundo em energia.

As novas reservas de petróleo significam que o Brasil potencialmente deixará de depender, no abastecimento de gás natural e petróleo, de vizinhos politicamente inconstantes, como a Bolívia e a Venezuela. Até agora, a auto-suficiência no petróleo, propagandeada com alarde pelo governo em 2006, não foi alcançada -- o déficit nas contas externas da Petrobras é atualmente da ordem de 700 milhões de dólares por mês. No caso do gás, o Brasil importa dois terços do volume que consome. Com a abundância de Tupi e Pão de Açúcar, esses déficits poderão ser facilmente revertidos. Os planos são bonitos no papel e nas estimativas, mas só vão virar realidade quando o líquido começar a jorrar das profundezas em que se encontra. Fazer isso acontecer -- e rápido -- será a grande tarefa do país daqui por diante. Os depósitos estão a 250 quilômetros da costa e a 7 000 metros de profundidade. Embora a Petrobras seja reconhecidamente especialista na exploração em águas profundas, o desafio técnico é imenso.

O mundo do petróleo

Principal fonte de energia do planeta, o petróleo continua a apresentar números crescentes

U$$ 113: preço atual do petróleo
U$$ 70: permite a produção de etanol de milho sem subsídio
U$$ 60: torna possível a produção de petróleo nos poços do Ártico
U$$ 50: viabiliza a produção de biodiesel no Brasil
U$$ 40: permite a produção de etanol de cana no Brasil e de petróleo em águas superprofundas, como no campo de Tupi
U$$ 35: custo de produção de petróleo em águas profundas, como na bacia de Campos
U$$ 17: custo de produção de petróleo no Oriente Médio

Fontes: Agência Internacional de Energia, IE/UFRJ, PSR e Unica


Evolução da produção mundial (em milhões de barris por dia)

1996 - 70
2001 - 75
2008 87(1)

(1) Média de fevereiro
Fontes: BP e World Oil

Evolução do preço do barril (petróleo Brent(1) — valores correntes em dólares)

1972 - 1,9
2008 - 113(2)

(1) Os dados de 1972 a 1975 são referentes ao tipo Dubai
(2) No dia 29 de abril

Fontes: BP e Arabian Light

E caro. Estima-se que a Petrobras e suas parceiras -- como a espanhola Repsol, a inglesa BG e a portuguesa Petrogal, entre outras -- tenham investido 1,5 bilhão de dólares nas pesquisas até agora. Ainda se desenha o modelo de negócios para desenvolver os novos campos. A descoberta do real potencial das reservas levará pelo menos mais dois anos. Em 2010, a Petrobras deverá colocar o primeiro poço em funcionamento -- chamado de poço piloto, que dará mais subsídios técnicos sobre a exploração embaixo da camada de sal, procedimento inédito nas condições encontradas na costa brasileira. A exploração total das novas jazidas deve levar mais cinco ou seis anos. Cálculos preliminares apontam que, para colocar um poço no pré-sal em produção, o investimento será de 2 bilhões de dólares -- e haverá, pelo menos, dez poços. Só então o petróleo vai ser riqueza para o país e para as empresas que o produzem. Se forem mantidos os preços atuais, na casa de 113 dólares o barril (e há quem projete altas ainda maiores), poucos têm dúvida de que a exploração valerá a pena. Por outro lado, apesar da instabilidade no Oriente Médio, onde estão dois terços das reservas comprovadas, não há garantia nenhuma de que o preço do petróleo não volte a cair bruscamente, como já aconteceu duas vezes desde o choque dos anos 70. Isso pode significar que os campos permaneçam inexplorados por falta de viabilidade econômica.

Os maiores produtores (em milhares de barris por dia)(1)

Arábia Saudita 10 859
Rússia 9 769
Estados Unidos 6 871
Irã 4 343
China 3 684
México 3 683
Canadá 3 147
Emirados Árabes 2 969
Venezuela 2 824
Noruega 2 778
Kuwait 2 704
Nigéria 2005
Argélia 2 460
Iraque 1 999
Brasil 1 809

(1) Dados de 2006 Fonte: BP

Os maiores consumidores (em milhares de barris por dia)(1)

Estados Unidos 20 598
China 7 443
Japão 5 164
Rússia 2 735
Alemanha 2 622
Índia 2 575
Coréia do Sul 2 312
Canadá 2 222
Brasil 2 097
Arábia Saudita 2 005
México 1 972
França 1 789
Reino Unido 1 952
Irã 1 669
Espanha 1 602

(1) Dados de 2006
Fonte: BP

MESMO COM TANTAS INCERTEZAS, A RIQUEZA de petróleo estimula a imaginação. Uma das especulações inevitáveis diz respeito à mudança da matriz energética brasileira. Até hoje, o petróleo e o gás costumavam ser analisados separadamente da energia elétrica e de outras fontes. Mas a abundância de gás natural na costa do Sudeste pode levar a uma mudança de planos. "Como boa parte dos consumidores está concentrada nessa região, a demanda poderia ser suprida com termelétricas alimentadas com o novo gás", diz Edmilson Moutinho, especialista em petróleo e professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo. Quanto à necessidade de construir uma nova usina nuclear, Moutinho é mais enfático: "Se o potencial dos novos campos for confirmado, Angra 3 vai para o espaço". Ainda é cedo para afirmar se as hidrelétricas perderão ou não importância na matriz energética do Brasil. De qualquer forma, o país poderá se dar ao luxo de escolher qual fonte de energia será mais conveniente para sua economia. E esse é um privilégio de poucos.

Outra vantagem de que o país desfruta em energia é na indústria de biocombustíveis. No final de abril, a Companhia Nacional de Abastecimento divulgou novo recorde na produção de etanol. Devem ser produzidos neste ano até 27,4 bilhões de litros do combustível, o que representaria aumento de 20% sobre o ano de 2007. É diante de um cenário de crescimento formidável que a indústria de etanol brasileira se vê às portas da maior transformação de sua história. Investimentos bilionários em tecnologia, feitos aqui e no exterior, vão permitir que a cana-de-açúcar seja a matéria-prima não só de álcool e açúcar mas de uma série de combustíveis de nova geração, além de fornecer uma parcela importante da energia elétrica consumida no país. Uma usina terá a possibilidade de destinar a sacarose para a produção de diesel e gasolina de açúcar ou bioplásticos. O bagaço poderá ser queimado para a geração de eletricidade ou então servir de alimento para microorganismos geneticamente modificados que vão digerir os restos da moagem para gerar ainda mais combustível, o chamado etanol de celulose. O potencial de energia elétrica resultante da queima do bagaço de cana é enorme. No ano passado, a bioeletricidade representou apenas 3% da matriz elétrica brasileira. Projeções da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) indicam que essa energia deverá alcançar participação de 15% na matriz nacional. Isso significa que as usinas de açúcar e álcool vão passar dos atuais 1 400 megawatts de potência para 11 500 em 2015. Até 2021, serão 14 400 megawatts -- o equivalente à geração da hidrelétrica de Itaipu, que responde por 20% do abastecimento do país. "Hoje, o etanol é o negócio mais importante da indústria sucroalcooleira, seguido do açúcar. No longo prazo, a bioeletricidade será o segundo negócio das usinas, passando o açúcar", diz Marcos Jank, presidente da Unica.

Potência em ascensão

Com as novas reservas descobertas, o Brasil vai subir nos rankings mundiais de petróleo e de gás

Evolução da produção de petróleo no Brasil (em barris por dia)

2000 1,27 milhão
2005 1,71 milhão
2010 2,3 milhões
2015 3,3 milhões

Fontes: Petrobras, BP e PSR


Reservas de petróleo (em bilhões de barris)

Hoje 12,2
2015 60

Reservas de gás natural (em bilhões de barris)

Hoje 350
2015 1300

Não é apenas o bagaço que tem potencial de transformar o que se entende por uma empresa sucroalcooleira. A Crystalsev anunciou em abril a criação de uma joint venture com a Amyris, companhia de biotecnologia do Vale do Silício, para a geração de diesel à base de cana-de-açúcar. Com o uso de uma levedura modificada geneticamente, a sacarose pode ser transformada em um novo tipo de combustível, que tem as mesmas propriedades do diesel tradicional e que, portanto, pode ser misturado em proporções de até 80% com o combustível de origem fóssil. A tecnologia também permite a produção de gasolina e querosene de aviação com cana-de-açúcar. A Amyris-Crystalsev, como foi batizada a nova empresa, vai inicialmente produzir o diesel em uma usina da Santelisa Vale, mas já está em entendimentos com outras produtoras de São Paulo. O objetivo é atingir 4 bilhões de litros do novo biodiesel a partir de 2011. A mesma Crystalsev também tem uma parceria com o conglomerado químico Dow Chemical para abrir uma unidade de produção de bioplásticos de açúcar. "As usinas estão se transformando em biorrefinarias", diz Rui Lacerda Ferraz, presidente da Crystalsev, trading controlada pela Santelisa Vale. "Com uma única plataforma, a cana, será possível olhar para o mercado e optar pelos produtos com melhor retorno."

Outro sinal da rápida evolução do setor foi a compra da rede de distribuição Esso, do grupo americano ExxonMobil, pela Cosan, maior empresa sucroalcooleira do país. Com o negócio, avaliado em 1 bilhão de dólares, a Cosan tornou-se a primeira produtora de etanol 100% verticalizada -- do plantio de cana-de-açúcar à bomba de combustível. Em primeiro lugar, a empresa incorpora uma rede de distribuição com 1 500 postos, a maioria deles localizada no estado de São Paulo, onde também estão suas 18 usinas de etanol -- há outras três em construção em Goiás. Isso facilitará o escoamento e reduzirá custos, melhorando a rentabilidade do negócio. Há ainda outros ganhos. "Atuar na distribuição nos permitirá o acesso a informações do mercado na composição dos preços", disse a EXAME Rubens Ometto, presidente da Cosan. A formação de preços ao consumidor sempre foi considerada uma das maiores caixas-pretas do setor. "De um lado, eram cinco ou seis distribuidoras. Do outro, mais de 200 produtores. Havia um desequilíbrio muito grande. O mercado sempre foi muito favorável ao comprador", diz Ometto.


O cenário do etanol

Os biocombustíveis, entre eles o etanol, ainda são pouco representativos no mundo...

A matriz de energia (participação de cada fonte no total do consumo)

No mundo

Petróleo 35%
Carvão mineral 23%
Gás natural 21%
Lenha e carvão vegetal 10%
Energia nuclear 6%
Biocombustíveis 2%
Energia hidrelétrica 2%
Outras energias renováveis 1%

No Brasil
Petróleo 38%
Carvão mineral 7%
Gás natural 9%
Lenha e carvão vegetal 13%
Energia nuclear 1%
Biocombustíveis 14%
Energia hidrelétrica 15%
Outras energias renováveis 3%

Fontes: Agência Internacional de Energia e Ministério de Minas e Energia

...mas a perspectiva é que sua importância cresça...

Evolução da produção de etanol no Brasil (em milhões de toneladas)(1)

2006 3,9
2010 7,2
2021 16

Consumo mundial de biocombustível (em milhões de toneladas)(1)

Cenário otimista Cenário conservador

2006 17 / 17
2010 49 / 42
2015 73 / 54
2030 147 / 92

(1) Em óleo equivalente

...com novos avanços na tecnologia de produção...

Cana transgênica

Embrapa e empresas privadas, como CTC e Alellyx, estão na corrida para obter a versão modificada geneticamente. Há pesquisas de variedades que resistam à seca e a pragas. Nenhuma versão transgênica por ora foi aprovada comercialmente

Etanol de celulose
Pertence à segunda geração do biocombustível. Poderá ser produzido com diferentes tipos de biomassa, como palha de milho, lascas de madeira, capim e bagaço de cana. Mas a tecnologia ainda não é viável em escala comercial

Diesel de cana
A empresa de biotecnologia americana Amyris criou um diesel de cana com as propriedades do diesel de petróleo. Em parceria com o grupo Santelisa Vale, a Amyris vai produzir o novo combustível de cana no Brasil


...e mais investimentos, como os projetos bilionários recentemente anunciados

A BP, antiga British Petroleum, fechou parceria com a Santelisa Vale e o grupo Maeda para a construção de duas usinas de etanol, um investimento de 1 bilhão de dólares. É a primeira vez que uma petrolífera estrangeira investe no etanol brasileiro

A Cosan, maior empresa do setor sucroalcooleiro do país, comprou por 1 bilhão de dólares a distribuidora de combustíveis Esso no Brasil.A companhia será a primeira produtora de etanol 100% verticalizada, da produção de cana à venda no posto

Quatro projetos de alcooldutos foram anunciados neste ano. Dois deles contam com a participação da Petrobras. Um terceiro é uma união entre Cosan, Copersucar e Crystalsev. A Brenco planeja investir 1 bilhão de dólares em mais um projeto de dutos.

Controlar os processos que vão desde a extração da matéria-prima até o tanque dos carros não é novidade na indústria de combustíveis -- assim operam as maiores petrolíferas do mundo. Foi justamente de olho nas oportunidades geradas pela integração da cadeia produtiva que a britânica BP, antiga British Petroleum, anunciou no final de abril a aquisição de 50% da Tropical BioEnergia. A empresa, fundada pela Santelisa Vale e pelo grupo Maeda, está construindo uma usina na cidade de Edéia, em Goiás, e tem planos de abrir uma segunda unidade, num investimento estimado em 1 bilhão de dólares. Com a associação, a BP tornou-se a primeira das gigantes do petróleo a entrar na produção de etanol no Brasil. As possibilidades de integração oferecidas pela indústria instalada no país foram decisivas, disse a EXAME Philip New, presidente da BP Biofuels, a unidade de biocombustíveis da petrolífera britânica: "Acreditamos que a indústria de etanol será parecida com a de petróleo. É um negócio que se baseia em localização, acesso aos recursos e infra-estrutura de produção e distribuição".



ALÉM DE UM FUTURO AUSPICIOSO EM TERMOS energéticos, o país também pode dar um salto sentido por muitas gerações. "O Brasil está ganhando um presente", diz o economista Vladimir Pinto, analista de petróleo e estrategista de renda variável do Unibanco, sobre as descobertas da Petrobras. "Uma boa política seria acumular reservas e utilizá-las como um trampolim para resolver problemas de diversas áreas e melhorar a eficiência da economia." Vladimir Pinto dá o exemplo do Chile, que mantém uma reserva nacional formada com o dinheiro da exportação de cobre, à qual o governo pode recorrer em um momento de crise. Funciona, portanto, como uma espécie de colchão para amortecer choques de fases adversas. Outro modelo é o da Noruega, que constituiu fundos nacionais abastecidos com a renda de petróleo. O país já amealhou mais de 300 bilhões de dólares com esse sistema. No caso brasileiro, um fundo semelhante poderia ser aplicado, por exemplo, na redução da carga tributária exagerada sobre outros setores, melhorando sua competitividade. Pelo mesmo raciocínio, poderia haver uma diminuição dos encargos trabalhistas. Ou, ainda, o dinheiro poderia tapar o rombo da Previdência, a fim de construir uma transição para um modelo de seguridade social viável no longo prazo. "O Brasil é uma economia diversificada e não tem por que ser um dependente da renda de petróleo, como os países árabes", afirma Pinto. Em vez de engessar, o dinheiro extra da energia pode dar mais dinamismo à economia -- além de protegê-la contra crises internacionais.

Mas um grande poder deve ser acompanhado de uma grande responsabilidade. "Gerenciar bem a nova riqueza será um processo econômico e político desafiante nos próximos anos", diz Terry Lynn Karl, professora de ciência política e estudos da América Latina da Universidade Stanford, na Califórnia. Terry é autora de The Paradox of Plenty ("O paradoxo da abundância", numa tradução livre), uma análise do impacto de descobertas de petróleo em países como Venezuela, Nigéria, Argélia, Irã e Noruega. Ela afirma que, diferentemente do que diz o senso comum, a riqueza mineral pode ser uma fonte de sérios problemas em países que têm um Estado fraco ou ineficiente. Os dólares a mais podem sobrevalorizar a moeda nacional, prejudicando outros setores exportadores e os esforços de diversificação da economia. Isso pode provocar inflação, escassez de bens de consumo e, conseqüentemente, mais desigualdade. É claro que o nível de desenvolvimento da economia e das instituições brasileiras não pode ser comparado ao de países endemicamente pobres, como Nigéria e Argélia. Mas existem outras armadilhas. "Uma delas é a corrupção", diz Terry. Outra é o uso político da riqueza -- basta olhar para o exemplo venezuelano.

A explosiva mistura de petróleo com política certamente fará parte da agenda nacional no futuro próximo. Em Brasília, já se discute de que forma o governo poderá tirar proveito da bonança que está no fundo do oceano. As conversas rondam uma seara delicada. Tocam a questão do modelo escolhido pelo país quando este decidiu abrir o setor de petróleo à iniciativa privada, em 1997. Um dos perigos à vista são as atitudes do governo no sentido de colocar o investimento estatal na frente. "O governo não tem trabalhado para que o ambiente regulatório seja estável", diz o consultor Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. Pires refere-se à decisão de tirar de leilão 41 dos blocos de exploração do país logo após a descoberta do campo de Tupi. O Conselho Nacional de Política Energética (formado por nove ministérios e por integrantes da sociedade civil para discutir questões energéticas de médio e longo prazo do país) está estudando qual seria o modelo ideal para regular o setor de petróleo. Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética, ligada ao Ministério de Minas e Energia, defendeu recentemente a mudança na legislação. "O Brasil atingiu outro patamar em reservas", disse ele, para justificar uma revisão. Mas, para especialistas, não há como encarar o enorme desafio da exploração sem contar com os recursos financeiros -- e a tecnologia -- da iniciativa privada.

No campo do etanol também existem obstáculos a superar. Do lado tecnológico, o país não tem condições de competir com os investimentos americanos no etanol de celulose. Além de um fundo do governo Bush de 3,6 bilhões de dólares, os investidores de risco que ajudaram a criar a economia da internet estão agora voltando seus dólares para as energias renováveis. Para ficar em um único exemplo: Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems e um dos investidores mais renomados do Vale do Silício, tem em seu portfólio nada menos que 11 empresas que investigam maneiras de produzir etanol de celulose e outros combustíveis verdes. Mas ficar para trás nessa corrida tecnológica pode não ser uma tragédia. O Brasil tem vantagens incontestáveis na oferta de matéria-prima orgânica que dará origem ao etanol de celulose. Dos 400 milhões de toneladas de cana processados na safra passada, restaram 120 milhões de toneladas de bagaço, acomodadas ao lado das usinas. O detalhe pode parecer insignificante, mas será fundamental para dar competitividade ao etanol celulósico brasileiro. Isso porque nos Estados Unidos a palha de milho -- principal candidata a insumo do biocombustível de segunda geração -- fica espalhada, depois da colheita, por uma área imensa. "Qual será o custo só para recolher essa matéria-prima do campo?", diz Ivo Fouto, diretor da Biocel, empresa de biotecnologia da Votorantim Novos Negócios. Ou seja, mesmo que os americanos vençam a batalha tecnológica, dificilmente o Brasil perderá a condição de principal produtor mundial de etanol.

Não há como negar: numa época em que as questões energéticas e o aquecimento global se tornaram itens prioritários na agenda de governantes, empresários e cidadãos de todo o mundo, o Brasil tem uma posição invejável. Transformar a promessa em realidade vai exigir firmeza política, competência técnica e dinheiro. O prêmio será um salto para a economia brasileira que só começa a ser imaginado e que pode representar um impacto comparável ao da industrialização, mais de meio século atrás. Um pouco de sorte também vai ajudar -- por mais que o país já tenha acertado na loteria ao encontrar dois elefantes no fundo do oceano.